Com o fim do “O Jornal de Coruche”, eis que surge uma novidade, um projecto, um sonho. O meu sonho e o sonho de todos aqueles que irão contribuir para que este se concretize. Surge o novo Jornal Lezírias. Nova gente chegará enquanto outros partem.

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Sexta-feira, 10 de Setembro de 2010

Um Conto de Réi$

Barnabé

 

Com as mãos gretadas, das feridas saradas, puxava as redes mais uma vez. E mais uma vez nada traziam. Demorava quase uma hora a puxar a rede e no fim nada. Depois de as ter a bordo, sentava-se devagarinho, calmamente voltava a pegar nos remos, para novamente estender as redes uns metros mais acima. Podia ser que desta vez tivesse mais sorte, era já disso que se tratava. Sorte. Em nada dependia de astúcia. Tinha uma carrada de anos de pescador no rio, tirando uns meses de aprendiz de ferreiro, não tinha feito mais nada na vida. Embora conhecesse o rio como ninguém, soubesse quando e onde paravam as carpas, os barbos e as bogas, isso, agora de nada lhe valia. Era pescador. Pescador e de rio. As barragens, as indústrias, as curas dos campos, tinham feito desaparecer toda a criação de Deus Nosso Senhor, que ele com todo o carinho colhia. A idade e o maltratado corpo já não lhe permitiam o desembaraço de outros tempos, acordava já cansado e com dores. Um corpo de um velho quer é trabalho. Antes era pescador, agora sou aventador de redes. Dizia Barnabé com sabedoria. E tinha razão passava toda a madrugada e grande parte da manhã para apanhar um ou dois peixitos. Não dava nem para o tabaco. Lá quando o rei fazia anos conseguia uma boa pescaria, mas depois era complicado arranjar fregueses, agora muito chiques, habituados a comprar peixinho do mar. Noutros tempos não davam para as encomendas. Os tempos da vida pobre. Peixe fresco? O da ribêra. Bem bom.

Nem a falta de freguesia, nem a falta de pescaria, o faziam abrandar. Deitava-se cedinho para cedinho partir para a pesca. Valha me Deus (assim sem tracinho), o barco, esperava por ele. Faziam companhia um ao outro, os dois viúvos. Uma doença ruim tinha-lhes tirado Maria. Noutros tempos, às vezes, pescavam os três. Em não poucas ocasiões, Maria, subia a bordo, mas não para ajudar na faina, o luar das quentes noites de verão e o balançar do barco faziam o resto. Era como se os três, fossem um só. Foram muitas as noites bem passadas mas nunca deram frutos. Diziam na aldeia, a boca fechada, que Maria era seca como a tia, irmã da mãe. Essa situação deixa-a infeliz, mas para Barnabé nada disso importava, tinha-lhe um tão grande amor, que sempre que a via era como se fosse a primeira vez, os olhos faiscavam como a luz de um farol, o coração batia nos pulmões, como badalo de sino de igreja. Era muito feliz Barnabé e isso notava-se na rua, sempre a falar com toda a gente, sempre com uma piada na ponta da língua mesmo quando a pescaria era nenhuma. Às vezes Maria, perguntava-lhe enternecida, vais gostar sempre de mim? E Barnabé, enternecido respondia, cada vez mais. E assim foi de facto, invariavelmente durante os 43 anos de casados, e mais os quatro de namorados, o amor destes dois foi sempre a crescer até não mais caber no peito de Maria.

Quando Maria se finou, mudou-se o Barnabé, parecia que tinha morrido também, deixou de ir à taberna, praticamente não falava com os vizinhos, nunca mais voltou a estar com os amigos, deixou de comer, não fazia a barba, ainda arranjou um cão, mas o má raça, tinha medo da água e isso para um pescador não dava jeito nenhum.   

Era ele, o Valha me Deus e o rio. Vivia para o rio, e agora que o rio ia também morrendo já pouco restava de Barnabé. O Valha me Deus, estava um pouco como o dono e o rio, velho de cansado porque tinha idade e gasto de desgosto, também por causa de Maria. A precisar de uma grande reparação porque já não tinha concerto, cada dia que passava, mais podre ficava. Barnabé sem dinheiro ia ele, a pouco e pouco, cosendo as feridas com tábuas velhas e deixando cicatrizes por todo o convés. Ultimamente trazia sempre uma saca cheia de areia porque as entradas de água era cada vez mais frequentes e tinha de correr a arrolha-las. Os vizinhos e os amigos quando o encontravam bem o avisavam, deixa-te disso Barnabé, tens a reforma, um dia ainda ficas no rio. Mas o nada que lhe restava era o rio e o Valha me Deus e não se pode tirar o nada que tem um velho homem cansado.

Uma madrugada quando se dirigiam para as redes que tinham deixado na noite anterior, ao Valha me Deus abriu-se um buraco, Barnabé que ia de costas, nem deu conta, depois outro, Valha me Deus começou a ranger, como que a dizer, acorda Barnabé estou a morrer. Barnabé só deu conta quando a água começou a subir pelas pernas acima, olhou os rombos e fingiu que não era nada com ele. Voltou a remar, nem se mexeu do lugar, Valha me Deus percebeu bem o destino e em nada se importou com isso. Ia ser como antigamente, Maria, Barnabé e Valha me Deus numa noite de luar. Barnabé continuou a remar, a água subia cada vez mais, mesmo com água pelo peito, Barnabé ainda remava. Olhou a margem pela última vez, e uma lágrima sua foi apagar-se no seu sorriso…deixou-se ficar, para ir ficar ao lado de Maria.

 

Pedro Lopes Boiça

publicado por Lezírias às 19:37
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